A primeira aula da disciplina Tecnologias Digitais no Ensino já me marcou logo de cara por um motivo bem aleatório: a luz acabou. E, sinceramente, eu achei que ali já era o fim da aula, porque normalmente quando isso acontece cada um pega suas coisas e vai embora, mas não foi assim. O professor Fernando Pimentel abriu a porta da sala para entrar claridade e a aula continuou. Eu achei isso muito significativo, porque passou uma sensação de compromisso real com aquele momento, como se a aula fosse importante demais para ser interrompida por isso. Acredito que isso já diz muito sobre o que essa disciplina ia ser.
Outra coisa que me marcou bastante foi uma fala do professor logo no começo. Ele disse que a gente não podia ser um copo cheio, porque o copo cheio quando recebe algo novo "derrama". Essa fala ficou na minha cabeça porque tem muito a ver com uma ideia que eu gosto bastante em Paulo Freire, essa noção de que a gente não é um ser pronto, acabado, fechado. A gente está sempre em construção. Sempre aprendendo, reaprendendo, revendo.
Também teve uma parte da aula que mexeu comigo de um jeito mais pessoal, que foi quando apareceu essa discussão sobre sair do espaço comum e ir além da zona de conforto. Isso me lembrou diretamente uma inquietação que eu já vinha carregando desde o meu TCC. Na época, o próprio professor Pimentel me fez uma pergunta que ficou ecoando em mim por muito tempo, que era sobre como estava a minha pesquisa em outros países. Aquilo me pegou, porque eu percebi que meu olhar ainda estava muito preso ao Brasil. E foi justamente esse incômodo que me levou a buscar um coorientador que tivesse mais experiência com pesquisas internacionais. Então, quando essa questão apareceu na disciplina, eu senti quase como uma confirmação de caminho, como se eu estivesse mesmo sendo empurrada para um lugar em que eu precisava ir.
Outra coisa que eu gostei muito foi a metodologia da disciplina. O professor apresentou a proposta de trabalhar com PBL, partindo de um problema, discutindo em grupo, levantando questões e depois aprofundando essas questões nas leituras da semana. Eu gostei porque faz muito mais sentido para mim do que o formato de seminário. Seminário, para ser bem sincera, muitas vezes parece mais uma obrigação do que um processo real de aprendizagem. Nem sempre quem apresenta aprende de verdade e, muitas vezes, quem escuta aprende menos ainda. Nesse formato da disciplina, eu sinto que existe mais espaço para pensar junto, construir junto e realmente voltar para a aula seguinte com algo para trocar.
E isso já ficou muito claro na primeira dinâmica que a gente fez. Foi muito legal ver como pessoas diferentes, com repertórios diferentes, conseguem fazer a discussão crescer. Nosso grupo até acabou indo um pouco para outro caminho, fugindo um pouco do foco que o professor queria naquele momento, que era aprofundar mais a ideia de tecnologia como ciência, apresentada por Pinto (2008). Mesmo assim, eu achei a experiência muito rica. Porque, no fim, mesmo quando a gente não vai exatamente para o lugar esperado, ainda assim aprende muito no percurso.
Já aproveitando pra falar da leitura da semana, nós lemos um trecho de "O conceito de tecnologia", de Álvaro Vieira Pinto (2008), e o que mais me chamou atenção foi essa compreensão de que tecnologia não é só computador, celular, internet ou qualquer coisa ligada ao digital, como normalmente a gente pensa. Vieira Pinto traz uma visão muito mais ampla, mostrando que tecnologia é, dentre outros significados, a ciência da técnica, e essa visão traz a tecnologia para um campo que atravessa as práticas humanas de forma muito mais profunda.
Foi aí que eu senti que eu percebi que esse era justamente um ponto que estava faltando na minha pesquisa, mas eu ainda não tinha conseguido enxergar com clareza. Eu sentia uma ausência, sentia que tinha algo ali que precisava ser melhor fundamentado, só não sabia ainda nomear o que era. E essa leitura me ajudou a entender isso. Pensar que existe técnica em escrever, em ensinar, em construir, em reparar, em fazer, e que a tecnologia está ligada ao estudo dessas técnicas, abriu para mim uma forma muito mais rica de pensar esse conceito dentro da educação. Até porque sempre fiquei muito triste quando via a tecnologia sendo resumida às mesmas ideias, ideias que, ao meu ver, geravam um muro entre a academia e a educação básica. Por isso, senti que vi ali uma ponte, ao invés de um muro.
Bom, saí dessa primeira aula com uma sensação muito boa. Foi uma aula que me marcou não só pelo conteúdo, mas pelo clima, pela metodologia, pelas inquietações que trouxe e, principalmente, pelo jeito como começou a tocar em questões que têm relação direta com a minha pesquisa e com a forma como eu mesma penso a tecnologia.


Olá Rute! Rute, seu relato é muito rico porque mostra como uma aula pode produzir aprendizagens que vão além do conteúdo, alcançando também a forma como pensamos nossa própria pesquisa. A maneira como você interpretou o episódio da falta de energia (transformando-o em uma metáfora sobre compromisso e continuidade do processo formativo) é muito interessante. Também chama atenção sua capacidade de conectar diferentes referências, como Paulo Freire e Álvaro Vieira Pinto, além de relacionar as discussões da disciplina com inquietações que já vinham surgindo desde o seu TCC. Esse movimento de reconhecer lacunas conceituais na própria pesquisa e começar a nomeá-las é um passo muito importante no processo investigativo.
ResponderExcluirOutro ponto forte do seu texto é quando você percebe que ampliar o conceito de tecnologia pode ajudar a construir “pontes” entre a academia e a educação básica. Essa é uma reflexão potente, pois desloca o debate da tecnologia do campo meramente digital para o campo das práticas humanas e da produção de conhecimento. Para ampliar ainda mais esse movimento, vale também visitar os blogs dos colegas e dialogar com as diferentes leituras que surgiram a partir da mesma aula e do texto de Vieira Pinto.
Fica uma provocação para seus próximos estudos: se ampliar o conceito de tecnologia ajuda a construir pontes entre universidade e escola, de que maneira sua pesquisa pode contribuir concretamente para aproximar esses dois espaços e evitar que a tecnologia continue sendo percebida como um “muro” na educação básica?