Estudo dirigido acerca do capítulo XV - As perspectivas da tecnologia, de Álvaro Vieira Pinto
Pra começar a discussão, é preciso entender como Álvaro Vieira Pinto desmonta a ideia da tecnologia como algo universal e neutro. Para ele, essas concepções são, na verdade, ferramentas ideológicas de dominação política e econômica:
- A falsa universalidade como instrumento de dominação metropolitana: Vieira Pinto argumenta que a elevação de disciplinas tecnológicas (especialmente a cibernética) ao status de "ciência universal" ou filosofia unificadora é uma manobra ideológica deliberada dos centros "metropolitanos" (as potências dominantes). Essa suposta universalidade é exportada para os países subdesenvolvidos com o objetivo de fascinar, domesticar e manter a subalternidade da consciência periférica. O autor critica pensadores como Heidegger por tentarem fazer crer que o triunfo da civilização técnico-científica seria o destino universal da humanidade, quando, na realidade, trata-se apenas da imposição global da ordem social ocidental e europeia em benefício dos centros imperialistas.
- A tecnologia como mediação, não como entidade autônoma: O autor rejeita enfaticamente a visão metafísica que confere à tecnologia leis autônomas ou a trata como um ente independente capaz de governar a história. Para Vieira Pinto, a técnica não faz a história de uma sociedade; pelo contrário, é a sociedade que engendra a técnica que lhe é acessível. A tecnologia atua apenas como uma "mediação" no fluxo do processo histórico e do trabalho humano. Ela não possui um poder mágico ou vontades próprias, sendo inteiramente condicionada pelas relações sociais de produção e pela atuação coletiva dos seres humanos.
- A tecnologia reflete os interesses do produtor e atua como mercadoria: Longe de ser um elemento neutro de salvação, a tecnologia é fundamentalmente uma mercadoria que possui preço de mercado. A exportação de maquinário e "know-how" para países dependentes não é uma "ajuda" benevolente, mas sim uma engrenagem de espoliação econômica e uma excelente transação financeira para a metrópole. O autor destaca que a criação de invenções não surge de forma fortuita ou puramente racional, mas sempre em função de exigências sociais e dos interesses econômicos da fração dominante da sociedade que as patrocina.
- A desmistificação da "Revolução Tecnológica": Ao quebrar a neutralidade da técnica, Vieira Pinto ataca a ilusão de que o avanço tecnológico, por si só, atuaria como uma força libertadora capaz de resolver problemas sociais ou as contradições humanas. Ele argumenta que a tecnologia nunca é o verdadeiro fator revolucionário. Invenções e aparatos são o resultado (e os instrumentos), não a causa, das tensões entre grupos sociais. A tecnologia serve aos objetivos das partes em conflito e pode ser usada tanto para oprimir quanto para libertar, dependendo unicamente da consciência e do projeto político do ser humano, que é o verdadeiro agente de qualquer transformação da realidade.
Além disso, para Álvaro Vieira Pinto, a apropriação ou a submissão à tecnologia está intimamente ligada à disputa pela consciência das massas, e o trabalho é o fundamento ontológico que retira a tecnologia do campo do fetichismo.
A forma como um povo se relaciona com a tecnologia define o grau de alienação ou de libertação de sua consciência. Vieira Pinto explica que os centros imperialistas (metropolitanos) utilizam a exportação de tecnologia e de suas teorias (como a cibernética) não para ajudar os países subdesenvolvidos, mas para infiltrar ideologias e manter a subalternidade da consciência periférica.
Quando uma nação consome passivamente a tecnologia estrangeira, acreditando que a simples importação de maquinário resolverá seus problemas estruturais, ocorre o que o autor chama de uma "alienação de segundo grau". Nesse processo, a consciência nativa é esvaziada e substituída por uma consciência artificial, ditada pelo dominador. O indivíduo do país dominado perde a percepção de si mesmo, esquece sua própria tradição cultural e passa a aceitar a ilusão de que a salvação virá de fora, pelas máquinas e capitais estrangeiros.
A constituição de uma consciência crítica, portanto, depende de o povo compreender que a tecnologia não é um fator mágico de salvação, mas sim uma mercadoria com preço de mercado, que serve aos interesses de quem a detém. A desalienação exige que a nação dominada quebre o encanto das "feitiçarias" tecnológicas importadas e prepare uma consciência autóctone capaz de planejar a aquisição e a produção da técnica a partir de um centro interno de poder, para benefício exclusivo do próprio povo e da resolução de suas contradições.
Ainda, Vieira Pinto supera a visão instrumental e fetichizada da tecnologia ao ancorá-la no conceito de trabalho, definido por um princípio fundamental: "o homem é o ser que produz a sua existência". Ao invés de olhar para a tecnologia como um ente autônomo, mágico ou independente que "causa" transformações sociais, o autor a define como uma pura mediação no fluxo do processo de trabalho humano.
Essa perspectiva desmistifica a tecnologia das seguintes maneiras:
- A técnica não faz a história: As transformações sociais não são obra da técnica atuando como um agente causal independente, mas são fruto das leis objetivas da atividade humana sobre o mundo. A tecnologia é apenas a resposta material gerada quando o ser humano enfrenta contradições concretas ao executar o trabalho produtivo.
- O ser humano como produtor do produtor: A essência do ser humano se dá no processo contínuo de trabalho e de educação pela sociedade. Pela evolução biológica e social (trabalho), o animal transformou-se no "homem produtor". A tecnologia é a manifestação desse processo de hominização e de acúmulo cultural na manipulação da realidade, e não um objeto solto no mundo.
- A tecnologia reflete as relações de produção: A invenção e a introdução de novos petrechos técnicos são condicionadas pela base social, política e econômica das nações, e pela ação criadora da inteligência voltada a extrair métodos mais produtivos.
Em suma, compreender a tecnologia pelo viés do trabalho significa reconhecer que ela não tem poder de libertar ou oprimir por si só. Ela é resultado e instrumento da ação e da luta humana, e o futuro da tecnologia dependerá inteiramente das novas relações sociais de produção e de convivência que as massas trabalhadoras vierem a instituir.
PINTO, A. V. O conceito de tecnologia. São Paulo: Contraponto, 2007. v. 2
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