Diálogos entre "O conceito de tecnologia" (Pinto, 2007) e "As tecnologias da inteligência" (Lévi, 1996)
A articulação entre Álvaro Vieira Pinto e Pierre Lévy se estabelece na compreensão de que a tecnologia e o ser humano se constituem mutuamente em um ciclo contínuo, unindo a materialidade do trabalho histórico à estruturação do pensamento coletivo. Enquanto Vieira Pinto explica o motor social e material que produz a técnica, Lévy detalha como esses produtos reorganizam as capacidades mentais da sociedade. Esse diálogo pode ser compreendido em três dimensões principais:
A rejeição da técnica como entidade autônoma e mágica
Ambos os autores recusam a visão essencialista de que a tecnologia possui leis próprias ou um poder mágico independente da ação humana. Para Vieira Pinto, a técnica não faz a história; ela é engendrada pela sociedade como uma mediação fundamental para que o ser humano enfrente as contradições da realidade no ato do trabalho produtivo. De forma muito semelhante, Lévy ataca o mito da "técnica neutra" ou autônoma, afirmando que ela é apenas mais uma dimensão do jogo coletivo humano. Para Lévy, a técnica é um terreno político de conflitos e interpretações divergentes, onde os processos sociotécnicos são construídos pelas estratégias de atores situados na história.
O trabalho que produz a existência constrói a "ecologia cognitiva"
Vieira Pinto ancora sua filosofia no princípio de que "o homem é o ser que produz a sua existência". O processo de evolução humana (a hominização) se dá pela passagem do animal que não produz para o humano que produz, criando um campo social e cultural através do trabalho.
Lévy dialoga perfeitamente com essa premissa ao demonstrar que a inteligência humana não é uma substância isolada ou puramente biológica, mas o resultado de uma "ecologia cognitiva". Nós não pensamos sozinhos, mas em "coletividades pensantes" compostas por cérebros, instituições, linguagens e artefatos técnicos. Ou seja, o trabalho histórico acumulado que Vieira Pinto descreve é exatamente o que fornece os "equipamentos coletivos da percepção, do pensamento e da comunicação" que Lévy analisa. Ao produzir a ferramenta (trabalho), o ser humano produz simultaneamente novas formas de conhecer e pensar (cognição).
A tecnologia como mediação material e "transcendental histórico"
Para Vieira Pinto, a tecnologia altera as condições de desempenho da atividade social, criando novas exigências para o trabalho e para a compreensão da realidade. Lévy expande essa ideia para o campo da mente, chamando as tecnologias intelectuais (como a escrita, a impressão e a informática) de um "transcendental histórico". Isso significa que a técnica estrutura a própria experiência e percepção de uma época.
Um exemplo dessa articulação é a revolução agrícola. Vieira Pinto veria a agricultura como uma transformação nas relações de produção e no trabalho de extração de bens. Lévy ilustra como essa nova base material de subsistência, que exige o cálculo das estações e a espera pela colheita, gerou uma nova relação com o tempo que se traduziu na invenção da escrita. A forma como a sociedade trabalha a terra passa a estruturar a forma como ela organiza seus signos e sua memória.
PINTO, A. V. O conceito de tecnologia. São Paulo: Contraponto, v. 2, 2007.
LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência S. Paulo: Editora, v. 34, 1996.
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