Um castelo de cartas

 Na minha última aula da disciplina de Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação, a gente viveu uma experiência que, para mim, fez muito sentido porque conseguiu juntar prática, reflexão e teoria de um jeito muito natural. A aula começou com uma atividade em grupo em que o professor dividiu a turma em três equipes, entregou um baralho para cada uma e propôs que construíssemos um castelo de cartas. No começo, pareceu uma brincadeira simples, mas logo vimos que não era tão fácil assim. As cartas caíam o tempo todo, a estrutura não se sustentava e a gente precisou tentar várias vezes. Primeiro, fomos testando do nosso jeito. Depois, começamos a observar os outros grupos, tentando entender o que eles estavam fazendo diferente. Mesmo assim, continuamos errando. Então decidimos pesquisar no Google alguma dica que pudesse ajudar. Foi aí que encontramos a sugestão de fazer uma base de cartas na mesa, como se fosse um chão, para evitar que elas escorregassem. Quando fizemos isso, tudo mudou e finalmente saiu um castelo!





Depois dessa atividade, o professor pediu que a gente pensasse na relação entre aquela experiência e a disciplina. Foi nesse momento que a atividade ganhou ainda mais sentido para mim. Percebi que o mais importante ali não era simplesmente construir o castelo, mas todo o processo que vivemos até chegar a ele. Houve tentativa, erro, observação, troca, pesquisa, adaptação e colaboração. Isso me fez pensar que inovação em sala de aula não é apenas colocar tecnologia no processo. Inovação tem mais a ver com abrir espaço para o aluno participar de verdade, testar caminhos, pensar, criar e encontrar soluções. É sair de uma lógica muito fechada, muito tradicional, e permitir que outras formas de aprender aconteçam.

Essa discussão ficou ainda mais forte quando o professor retomou uma atividade da aula anterior, em que tínhamos usado o Miro para fazer uma espinha de peixe. Naquele momento, muita gente teve dificuldade com a ferramenta. Algumas pessoas precisaram migrar para o PowerPoint, outras foram para outros recursos, porque o Miro, que era a ferramenta inicialmente sugerida, acabou atrapalhando mais do que ajudando. Isso gerou uma reflexão muito importante sobre a escola como ecossistema. O professor trouxe a ideia de que, quando pensamos a sala de aula, precisamos entender que tudo está conectado. As ferramentas, as metodologias, o tempo, a familiaridade dos alunos com certos recursos, tudo isso interfere na aprendizagem. Nem todo recurso tecnológico, por mais interessante que pareça, vai realmente contribuir. Às vezes, ele só torna o caminho mais difícil. Então, mais do que querer inovar, é preciso perceber se aquilo que estamos propondo realmente faz sentido para aquele contexto.

Outro momento que me marcou bastante foi quando o professor falou sobre a diferença entre usar e incorporar tecnologia. Ele trouxe uma frase que ficou na minha cabeça: nós não usamos tecnologia, nós incorporamos. Isso mexeu comigo porque, no meu TCC e também na minha proposta de pesquisa, eu falo muitas vezes em uso da tecnologia, uso da computação desplugada e assim por diante. Mas, a partir dessa aula, comecei a perceber que a palavra uso pode dar a impressão de algo mais superficial, quase como se a tecnologia fosse só um instrumento colocado ali de forma pontual. Quando pensamos em incorporação, a ideia muda. Passamos a entender que a tecnologia já faz parte da nossa vida, da vida dos estudantes e da escola. Então, o que fazemos na educação não é simplesmente usar algo externo, mas trazer para o processo pedagógico algo que já está presente no mundo, só que agora com intencionalidade educativa. Para mim, essa mudança de visão foi muito importante, inclusive para rever a forma como escrevo e penso minha própria pesquisa.

Mais adiante, a aula entrou na discussão sobre epistemologia, e esse foi outro momento muito significativo. O professor falou sobre ensinar, aprender, escola, universidade e os processos que envolvem tudo isso, e pediu que construíssemos um quadro com teorias epistemológicas, como construtivismo e conectivismo, para depois pensarmos em qual perspectiva nos identificamos mais. Essa parte me fez refletir bastante porque percebi que não basta gostar de determinados autores ou trazer várias ideias soltas para um trabalho. É preciso ter clareza sobre qual é a nossa visão epistemológica, porque isso orienta a forma como pensamos a educação, como interpretamos os processos de aprendizagem e como construímos nossa pesquisa. O professor chamou atenção para o fato de que não dá para ficar passeando entre diferentes visões sem critério. Em algum momento, é preciso assumir uma posição e aprofundá-la. Eu achei isso muito importante porque me fez entender que coerência teórica não é só uma exigência acadêmica, mas uma forma de dar consistência ao que acreditamos e defendemos.

No fim da aula, ainda tivemos um momento de debate sobre os problemas discutidos em grupo, e essa parte também foi muito reveladora. O nosso grupo teve uma dificuldade de comunicação e, por isso, não conseguiu finalizar o debate a tempo da melhor forma. Quando chegou a hora de responder, percebemos que nossa pergunta não estava tão bem estruturada quanto deveria. Na hora, isso foi desconfortável, mas depois eu consegui olhar para a situação como um aprendizado. Foi uma espécie de alerta para percebermos que, muitas vezes, a gente se alonga demais no que acha, no que pensa, no que gostaria de dizer, e acaba perdendo o foco do que realmente precisa ser feito. Não que nossas opiniões não sejam importantes, mas elas precisam estar fundamentadas e organizadas. Antes de defender o que pensamos, precisamos construir bem o caminho que sustenta esse pensamento. Nesse sentido, até o erro do grupo acabou sendo formativo.

Saí dessa aula com a sensação de que ela foi muito mais do que um conjunto de atividades. Foi uma aula que me fez pensar sobre prática pedagógica, sobre pesquisa e também sobre mim mesma enquanto estudante de mestrado. O castelo de cartas, que no início parecia apenas uma dinâmica, acabou se tornando uma metáfora muito interessante para a própria aprendizagem. Nada ficou em pé de primeira. Foi preciso insistir, observar, buscar ajuda, reorganizar a base e tentar de novo. De certo modo, acho que isso também diz muito sobre o processo de aprender, de pesquisar e de construir conhecimento.


Comentários