Na última aula, a gente finalizou o PBL do meu grupo e debateu as respostas que a turma trouxe para as perguntas. Foi um momento interessante porque conseguimos entrar de verdade nas problemáticas que o PBL propunha, principalmente na relação entre mulheres e tecnologia.
Mas, ao mesmo tempo, eu saí da aula bastante decepcionada.
Quando puxei o debate sobre gênero, tecnologia e causas sociais, senti que o assunto não foi recebido com a seriedade que merecia. Parecia que, para algumas pessoas, falar sobre isso era exagero, militância demais ou algo que não precisava estar ali. E o que mais me incomodou foi ouvir mulheres reforçando ideias como “mulheres se interessam mais por moda, criatividade, roupas e maquiagem”, como se isso explicasse a ausência delas na tecnologia.
Mas será mesmo?
Pra mim, isso não é uma característica natural da feminilidade. É uma construção social, atravessada pelo machismo e pelo patriarcado. A questão não é que a tecnologia precisa falar de “roupinha” ou “vestir boneca” para atrair mulheres. A questão é entender por que ainda associamos mulheres a determinados temas e afastamos delas outros espaços, como se tecnologia, lógica, programação e competição fossem territórios masculinos.
Também me chamou atenção a ideia de que mulheres não entram na tecnologia porque é um ambiente competitivo. Eu discordo muito disso. Existem mulheres extremamente competitivas, em áreas muito exigentes, como medicina, jornalismo, direito, pesquisa, gestão e tantas outras. O problema não é a competição. O problema é a falta de respeito, o apagamento, a desconfiança constante sobre a capacidade das mulheres e a sensação de que precisamos provar o tempo inteiro que merecemos estar ali.
E isso é ainda mais contraditório quando lembramos que a história da computação também foi construída por mulheres. O primeiro algoritmo foi escrito por Ada Lovelace, e muitas das primeiras programadoras eram mulheres que operavam grandes máquinas e faziam cálculos complexos. Mesmo assim, a narrativa dominante parece insistir em apagar essas presenças.
Essa aula me fez pensar muito sobre o que a gente chama de inclusão.
A gente fala o tempo inteiro sobre tecnologia inclusiva, sobre aula acessível, sobre criar atividades em que todos consigam aprender. Mas será que estamos olhando para todos mesmo? Ou estamos olhando para um “todos” dentro de um padrão específico?
Inclusão não é só Educação Especial. Inclusão também é gênero, raça, sexualidade, classe social, território, alimentação, moradia, segurança, trabalho, acesso, permanência e reconhecimento. Inclusão é olhar para as pessoas reais, com suas histórias reais, e entender que aprender não acontece separado da vida.
Por isso, pra mim, falar de tecnologia na educação sem falar de sociedade é um erro. Não dá para defender uma tecnologia que melhora a aprendizagem se ela continua reproduzindo os mesmos padrões de exclusão. Não dá para falar em inovação sem questionar quem fica de fora, quem é silenciado e quem precisa se adaptar o tempo inteiro para caber.
Saí decepcionada, sim. Mas também saí lembrando por que eu insisto tanto em estudar tecnologia na educação. Eu não quero pensar tecnologia só como ferramenta, plataforma ou recurso bonito para deixar a aula mais dinâmica. Eu quero pensar tecnologia como possibilidade de transformação, de crítica, de acesso e de disputa.
E talvez seja justamente por isso que esse caminho às vezes pesa tanto. Porque quando a gente tenta trazer gênero, raça, sexualidade e desigualdade para o debate tecnológico, ainda parece que muita gente fecha a porta antes mesmo de escutar.
Mas, para mim, esses debates precisam estar na sala. Precisam estar na tecnologia. Precisam estar na educação.
Porque, enquanto a gente continuar fingindo que existe um único tipo de aluno, um único tipo de professor, um único tipo de mulher, um único tipo de homem e uma única forma de aprender, a gente vai continuar chamando de inclusão aquilo que, na prática, ainda exclui muita gente.
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